O gargalo invisível em compras: o problema não é cotar, é especificar
Na rotina de compras, a perda de produtividade raramente está na negociação. Ela aparece antes, num ponto que muita gente normaliza: a qualidade do pedido.
Quando a demanda chega como “limpeza de calha”, “troca de fechadura”, “manutenção do ar-condicionado” ou “pintura de parede”, o comprador vira um tradutor de intenção. E, quando isso acontece, o processo começa com ruído:
- fornecedor interpreta de um jeito, outro fornecedor interpreta de outro;
- propostas chegam incomparáveis (e o comprador perde tempo “equalizando”);
- cresce a troca de e-mails e a fase de esclarecimentos;
- a contratação nasce frágil e o risco migra para aditivos, disputa de escopo e retrabalho.
O ponto central é simples: se o escopo nasce fraco, o BID nasce fraco. E quando o BID nasce fraco, o custo real aparece no tempo da equipe, na fricção com fornecedores e no risco contratual.
É aqui que um GPT custom no ChatGPT pode ser usado como ferramenta de gestão, e não como “moda”. Um assistente bem estruturado padroniza a passagem do pedido vago para um escopo mínimo licitável, com checklist, premissas e perguntas de confirmação.
Para aprofundar a visão de processo e contratação de serviços, recomendo também: Processo de Compras | Contratação de Serviços.
O que é um GPT custom em compras (e o que ele não deve ser)
Um GPT custom, neste contexto, é um copiloto de escopo. Você define o papel, as regras e o formato de saída para que o assistente:
- faça as perguntas certas (quando faltam dados críticos);
- organize o escopo em blocos padronizados;
- gere uma solicitação de proposta pronta para disparo;
- crie comparabilidade e governança desde o início.
O que ele não deve ser:
- um “robô que compra sozinho”;
- um gerador de texto bonito que inventa dados;
- um substituto para responsabilidade técnica;
- um atalho para pular validações de segurança, acesso, aceite e documentação.
Eu gosto de trabalhar com dois conceitos operacionais (que você pode aplicar em qualquer categoria):
- EML — Escopo Mínimo Licitável: se o pedido não atinge o EML, você não está comprando; está tentando “cotar no escuro”.
- BCD — BID Comparável por Design: propostas comparáveis não acontecem por sorte; acontecem quando a entrada e a saída são padronizadas.
Exemplo real: de “limpeza de calha” a um escopo pronto para BID
Para demonstrar na prática, usei uma situação comum: uma solicitação simples, curta, quase informal: “limpeza de calha”.
Um assistente de compras bem configurado não “chuta” medidas. Ele puxa variáveis críticas e devolve um documento que:
- faz fornecedores entenderem o mesmo problema;
- obriga propostas comparáveis;
- reduz disputa posterior de escopo;
- melhora governança: segurança, descarte, seguro, aceite, evidência.
A seguir, um exemplo de saída (formato de e-mail/solicitação formal), gerado a partir da demanda inicial:
Prezados,
Solicito proposta para execução de serviço de limpeza de calhas conforme especificações abaixo:
Trata-se de 45 metros lineares de calha, em edificação térrea com altura aproximada de 2,7 metros. A cobertura é composta por telhas metálicas. Atualmente há acúmulo de folhas e fuligem. Ao final da limpeza, deverá ser realizado teste com água para verificação de escoamento adequado.
Dispomos de andaime no local, porém é necessário informar se a proposta contempla montagem e desmontagem ou apenas a utilização do equipamento. O serviço deverá ser executado em final de semana, favor informar eventual adicional por execução fora do horário comercial.
Solicitamos que a proposta contemple obrigatoriamente:
– Quantidade de profissionais envolvidos
– Jornada estimada para execução
– Inclusão de EPIs e demais itens de segurança
– Responsabilidade pelo descarte dos resíduos
– Seguro de responsabilidade civil
– Prazo para mobilização
– Registro fotográfico antes e depois da execução
– Valor global fechado para o escopo descritoFavor confirmar também:
– Se o valor é fechado independentemente do volume de sujeira encontrado
– Como é tratada eventual identificação de vazamentos durante o teste final
– Se há garantia do serviço e por qual período
– Experiência prévia em limpeza de calhas com cobertura metálicaImportante: infiltrações estruturais ou falhas pré-existentes na cobertura não fazem parte do escopo deste serviço.
Aguardamos envio da proposta detalhada.
Atenciosamente,
Note o que muda quando você sai do “pedido vago” para um escopo licitável:
- quantificação: metragem e altura aproximada;
- contexto técnico: tipo de cobertura e condição atual;
- aceite e evidência: teste com água + registro fotográfico;
- responsabilidades: descarte, EPIs, seguro;
- condições operacionais: final de semana e andaime;
- perguntas de confirmação: preço fechado, vazamentos, garantia, experiência;
- exclusões: falhas pré-existentes fora do escopo.
Isso é produtividade aplicada: o comprador deixa de “apagar incêndio” e passa a desenhar concorrência com consistência.
Como criar seu Assistente Virtual de Compras no ChatGPT (passo a passo)
O segredo não é “ter acesso ao ChatGPT”. O segredo é configurar um padrão operacional. Eu estruturo o GPT em quatro camadas:
- Papel: o que ele é e para quem serve;
- Regras: o que sempre deve perguntar, e o que nunca deve assumir;
- Formato de saída: blocos padronizados para e-mail, escopo e checklist;
- Governança: limites, segurança, evidência e trilha.
1) Defina o papel com precisão (sem adjetivos vazios)
Evite “você é um especialista em compras”. Isso é genérico e não cria padrão. Use um papel que descreva função e entrega:
- Você é um Assistente de Escopo e BID para compradores.
- Você transforma pedidos curtos em: (1) solicitação formal; (2) escopo numerado; (3) checklist obrigatório; (4) perguntas de confirmação; (5) premissas e exclusões; (6) critérios de aceite.
- Você não inventa medidas, quantidades, materiais ou condições. Se faltar dado crítico, você pergunta.
2) Crie um roteiro obrigatório (o coração do GPT)
Aqui você cria o “molde” que reduz variação entre compradores e aumenta previsibilidade do BID.
Entradas mínimas (o usuário pode escrever do jeito simples):
- serviço/demanda em 1 frase;
- local (unidade, prédio, setor);
- janela de execução (data/horário);
- restrições (final de semana, área crítica, ruído, acesso, operação 24×7).
Campos que o GPT deve extrair ou perguntar (sempre):
- quantitativo: metragem, área, quantidade de pontos, número de equipamentos;
- condição atual: sujeira, desgaste, falha, urgência;
- acesso: altura, andaime, área técnica, isolamento, permissão de entrada;
- segurança: EPIs, documentação, procedimentos internos e responsabilidade;
- responsabilidades: descarte, proteção de áreas, limpeza pós-serviço;
- aceite e evidência: teste, fotos, relatório, check de funcionamento;
- premissas e exclusões: o que não está incluso;
- prazo e mobilização: início, duração estimada, equipe;
- garantias: período e condições;
- seguro e conformidades: seguro RC quando aplicável, e requisitos mínimos.
Se você quer elevar a qualidade da análise das propostas recebidas, vale integrar este padrão com: Analisando um Orçamento ou Proposta de serviço.
3) Padronize a saída em blocos fixos
Para o assistente virar rotina (e não “texto que varia”), padronize a resposta:
- E-mail de solicitação (texto pronto para disparo);
- Escopo técnico numerado (itens claros, sem poesia);
- Checklist obrigatório da proposta (o que deve vir na resposta do fornecedor);
- Perguntas de confirmação (pontos críticos que evitam surpresa);
- Premissas e exclusões (onde nascem disputas e aditivos);
- Critérios de aceite (como validar a entrega, que evidência exigir).
4) Governança: “travamentos” que evitam erro caro
Um GPT de compras precisa ser conservador por padrão. Alguns travamentos úteis:
- Se faltar quantitativo, pergunte antes de finalizar.
- Se houver risco de segurança (altura, eletricidade, área técnica), inclua exigência de EPIs e responsabilidades.
- Inclua sempre um bloco Fora do escopo para reduzir aditivo oportunista.
- Inclua aceite e evidência (fotos, teste, checklist), para fechar o ciclo.
Para conectar escopo e risco contratual, este complemento é estratégico: Elaboração de Contrato de Serviço: principais pontos e Gestão de Contratos em Hospitais.
Modelo de instruções para colar no seu GPT (pronto para uso)
Você pode copiar e adaptar o texto abaixo no campo “Instruções” do seu GPT:
Função: Você é um Assistente de Escopo e BID para compradores. Sua missão é transformar solicitações curtas em escopos consistentes e licitáveis para BID/RFQ.
Formato obrigatório de saída:
(1) E-mail de solicitação de proposta;
(2) Escopo técnico numerado;
(3) Checklist obrigatório da proposta;
(4) Perguntas de confirmação;
(5) Premissas e exclusões;
(6) Critérios de aceite e evidências (fotos/testes/relatório).Regras: Nunca invente quantidades, medidas, materiais, acesso ou condições. Se faltar dado crítico, faça perguntas objetivas antes de finalizar. Priorize governança: segurança, responsabilidades, descarte, seguro RC quando aplicável, garantias, evidências e aceite.
Linguagem: objetiva, executiva, sem floreios e sem ambiguidade.
Checklist de implantação: como virar rotina e otimizar mão de obra
Para o assistente não virar “mais uma ferramenta”, implemente como procedimento operacional:
- Crie um fluxo padrão: Pedido vago → GPT → EML → BID.
- Defina 3 saídas padrão: e-mail, escopo numerado e Q&A (esclarecimentos).
- Monte uma biblioteca de escopos por categoria (facilities, manutenção, TI, serviços terceirizados etc.).
- Faça revisão quinzenal: quais campos mais faltam? Ajuste o roteiro do GPT.
Se você trabalha com alto volume, é aqui que o ganho aparece: você reduz “micro tarefas” repetitivas e libera o time para atividades de maior valor.
Uma base de padronização forte começa no cadastro e na taxonomia: Cadastro de Materiais.
Como medir o ganho (sem achismo): indicadores práticos
Evite medir “tempo economizado” no feeling. Meça sinais objetivos:
- Número de esclarecimentos por BID (antes/depois);
- % de propostas incomparáveis (fora do formato);
- Tempo entre demanda e disparo do BID;
- Incidência de aditivos por falha de escopo;
- Divergência de preço (fica mais explicável quando o escopo é consistente).
Se quiser um KPI simples e direto:
TRE — Taxa de Retrabalho de Escopo
TRE = (nº de rodadas de ajuste) + (nº de esclarecimentos críticos) por processo.
Quando TRE cai, o comprador recupera foco e o BID começa a ficar “limpo”.
Erros comuns ao criar um GPT de compras (e como evitar)
- Deixar genérico: “especialista em compras” não gera padrão operacional.
- Permitir suposições: se o GPT “chuta”, você perde credibilidade e aumenta risco.
- Não padronizar saída: cada resposta vira um estilo e a operação não escala.
- Ignorar governança: segurança, descarte, seguro, aceite e evidência são o que sustentam o contrato.
- Não registrar aprendizados: biblioteca de escopos por categoria é o que consolida maturidade.
Fechamento: o comprador que padroniza escopo controla a concorrência
O comprador maduro não é o que “cota mais rápido”. É o que cria as condições para um BID justo, comparável e auditável.
Um GPT custom bem estruturado não substitui o comprador. Ele elimina desperdício: o tempo gasto traduzindo demanda confusa em documento utilizável. E isso, no final, é otimização real de mão de obra.
Laurival Silva




